Hoje eu acordei com dor. E foi assim que eu cheguei, 7 de Abril ao trabalho por volta das 7h30 da manhã. Tanto 7 podia ser sinal que tudo sairia perfeito.
É assim que tenho acordado nos meus últimos dias... uma dor de cabeça que me persegue e que os sintomas apontam para uma sinusite. Essa é a minha dor!
Não bastasse isso, quando piso no “solo sagrado” de meu ambiente de trabalho, sou surpreendido por uma colega com a notícia que o salário havia atrasado mais uma vez. Pela quinta vez consecutiva a empresa não pagava em dia e sequer uma satisfação havia deixado para nós empregados. Pronto! A dor de cabeça aumentou, a pressão deu uma leve subida (dizem que tô ficando velho) e o dia estava pronto pra ser péssimo. Essa é a minha dor!
Reclamações, indignação, sentimento de estar sendo usurpado de direitos conquistados, enfim, toda essa celeuma que meus companheiros de empresa e que qualquer cidadão sentiria nessas horas. Quem tem contas pra pagar sabe como é isso! Quem tem compromissos, também!
O fato é que minha dor é apenas mais uma dor. Não é a sua, não é a do seu irmão e nem a do seu vizinho. Foi assim que fomos aprendendo com a vida – e aprendendo erradamente – que cada um deve mesmo cuidar da sua vida e que ninguém deve importunar o outro com seus problemas pessoais. Já está lá no pacote da vida todas essas contingências: Dores, enfermidades, perdas, convívio com as ausências, frustrações, fracassos, enfim... Tá tudo aí!
O grande xis dessa questão toda é que a vida não se resume aos meus problemas e que os meus problemas não norteiam o mundo desde o momento que percebo que outras tragédias se desencadeiam perto ou longe de mim.
Um clique na tela e está lá: "Atirador faz vítimas em colégio do subúrbio carioca".
Meu Deus, estamos nos Estados Unidos? Algum louco ensandecido entrou numa escola de "mauricinhos e patricinhas zona sul" e revoltado com sua condição de pobre rejeitado resolve atirar em quem aparecer pela frente?
- Não!
Minha mente se apressa em responder.
- "Tá tudo globalizado meu jovem. Vento que venta lá venta cá".
A escola é pobre, é de subúrbio e não tem nada de rico esbanjando. É mesmo o caráter do homem moderno decaído, bestificado... A imagem e semelhança de Deus foi ofuscada.
Nesse instante que a ficha cai minha dor desapareceu. Não de fato, mas o efeito agora é outro. Minha dor abre as portas para ser trucidada por uma dor maior. Crianças estão no chão banhadas em sangue. Professores aterrorizados se desesperam com anjos em seus braços, pais se amontoam a porta da escola em busca dos seus filhos... Alguns nunca mais trocarão uma só palavra com eles.
O que é isso? Eu não consigo entender!
Você consegue imaginar isso? Seu coração consegue alcançar a dor de um pai ou de uma mãe dessas?
Sua mente por um instante consegue desligar-se da corriqueira rotina e olhar para o lado? E Deus? Como está o coração de Deus agora?
Enquanto discutimos se a festa será azul ou verde, se faremos torta ou bolo surpresa, a vida revela numa pergunta suas entranhas escancaradas. Suas vísceras estão à mostra dura e cruelmente...
Qual é a sua dor?
Tiago Alves